Casos de tortura e morte de imigrantes japoneses são tema da Comissão da Verdade

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Em sua 83ª audiência pública, realizada dia 10/10, a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva abordou os casos de tortura e morte de imigrantes japoneses no Brasil entre os anos de 1946-1947. A reunião teve apoio da Comissão Nacional da Verdade, que estava representada por Rosa Cardoso.

O presidente Adriano Diogo (PT) afirmou que o povo brasileiro deve desculpas à colônia japonesa, pois por racismo e intolerância, 172 pessoas da comunidade ficaram presas no presídio da Ilha Anchieta, no litoral norte do Estado. A grande maioria dessas pessoas eram inocentes, sendo mandados para lá, por exemplo, por se recusarem a pisar a bandeira japonesa.

A audiência foi proposta por Mario Jun Okuhara, que falou da pesquisa de 12 anos que resultou no documentário Yami no Ichinichi – O crime que abalou a colônia japonesa no Brasil. Okuhara afirmou que é importante o reconhecimento das graves violações dos direitos humanos, pois a vergonha (um traço cultural da colônia nipo-brasileira) fez com que livros oficiais escondessem a intolerância e a violência que os imigrantes japoneses sofreram.

Após o fim da 2ª Guerra Mundial, 80% da colônia no interior do Estado de São Paulo, isolada, acreditava que o Japão havia vencido. Isso gerou dois movimentos na colônia, que levaram à discórdia.

Vida no presídio

A história de três pessoas foi contada à comissão. Uma delas foi a de Tokuichi Hidaka, que narrou os fatos que o levaram a ser, em junho de 1946, um dos autores do assassinato do coronel Jinsaku Wakiyama, líder da comunidade japonesa no Brasil. Hidaka contou ainda como era a vida no presídio Anchieta, onde ficou dois dos quinze anos da pena que cumpriu pelo homicídio de Wakiyama.

Em depoimento em vídeo, Akira Yamaguchi relembrou o que seu pai, Fusatoshi, contou sobre o tempo em que esteve no presídio Anchieta. A senhora Shizuko Kambara relembrou a prisão de Fukuo Ikeda, morto em 1946, vítima de tortura policial, e falou do clima tenso em que vivia a colônia no interior de São Paulo.

Resgate da história

Os deputados federal Junji Abe (PSDB) e estadual Jooji Hato (PMDB) agradeceram a realização da audiência e destacaram a necessidade de resgatar a história da colônia japonesa e restabelecer a verdade para que tais fatos, assim como a bomba de Hiroshima, nunca mais aconteçam.

A vereadora de São José dos Campos Amélia Naomi destacou a importância da audiência para a colônia japonesa. Ela, que preside a Comissão da Verdade da Câmara Michal Gartenkraut, reitor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), cassado cinco dias após conceder diplomas a ex-alunos perseguidos pela ditadura, disse que um dos objetivos é o fim da subordinação do ITA à Força Aérea Brasileira. Assistiram também à reunião diversos representantes da comunidade japonesa.

Homenagens

A audiência pública foi aberta com uma referência às bombas que destruíram as cidades de Hiroshima e Nagasaki, em 1945. A atriz Míriam Muniz leu depoimento de uma sobrevivente, que à época tinha 16 anos de idade.

Ao som de toque de clarim, Carmem Nakasuo de Souza, filha de presos políticos, depositou flores junto às bandeiras do Japão, do Brasil e do Estado. Foi uma homenagem não só à memória dos mortos japoneses na 2ª Guerra como também a todos os descendentes que, no Brasil, lutaram pelo fim da ditadura.

Esses combatentes de origem oriental foram nomeados em apresentação, sendo que sete deles estão mortos ou são desaparecidos políticos. Luiz Gushiken, um dos fundadores do PT recentemente falecido, também foi homenageado por seu filho Guilherme.

O documentário Yami no Ichinichi – O Crime que Abalou a Colônia Japonesa no Brasil pode ser assistido abaixo.

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